Arminda Lopes: do belo à arte de contestação

Ramiro Furquim/Sul21

Rachel Duarte

Uma abastada com culpa social que utiliza a dor dos miseráveis brasileiros para ter reconhecimento internacional. Há quem julgue assim a artista plástica gaúcha Arminda Lopes, autora da cruz de berços hospitalares exposta na Praça da Saudade, em Porto Alegre. Famosa socialite da capital gaúcha, a mulher de cabelos multicolor e boa aparência física, no auge da melhor idade, teve que vencer preconceitos desde a infância para ser reconhecida como escultora. Natural de Santa Maria, Arminda era ridicularizada pelos irmãos quando deixava aflorar seus dotes artísticos em meio às brincadeiras de criança. Os pais também não levaram a sério seu talento: esperavam da filha a escolha por uma ‘profissão séria e bem remunerada’. Foi diante das dores e angústias da vida adulta que ela criou coragem de assumir uma carreira e teve o ‘insight’ da sua verdadeira veia artística.

Esposa de um engenheiro e mãe de quatro filhos, Arminda pediu sua carta de alforria da vida de dona de casa e acompanhante de eventos sociais da empresa em que o marido trabalhava em 1983. “Chegou um ponto que eu disse que não queria mais ficar em casa ou na vida de acompanhante do meu marido. Eu sempre fui inquieta e criativa e decidi que seria artista. Primeiro meu marido não levou a sério. Depois, resistiu”, conta.

O começo foi na escola de arte da pintora Leila Sudbrack, na Zona Sul de Porto Alegre. As aulas com os professores Wagner Dotto e Fernando Dario, entre outros, renderam o primeiro contato com as técnicas de artes plásticas e um incentivo para ir em frente. “Fui fazer teste para o Ateliê Livre da Prefeitura de Porto Alegre e passei, apesar de meu marido não ter me ajudado a acordar no dia do teste por não querer que eu continuasse com a arte”, diz.

Ruy Lopes Filho, esposo de Arminda Lopes | Foto: Ramiro Furquim/Sul21

O marido Ruy Lopes Filho tem outra versão. “Ela já quis abrir boutique e voltava com as mercadorias de São Paulo e doava tudo antes de vender. Depois começou com esta história de arte. Eu dei contra para testar se ela realmente queria ser artista. Foi um teste que eu fiz com ela”, revela. Hoje apreciador dos trabalhos da esposa, Lopes Filho, diz que sempre percebeu o potencial de Arminda. “Ela tinha tudo para ser artista, mas tinha que ter persistência. E, não esperar ter prestígio rápido. O artista muitas vezes só é consagrado depois de 30 anos ou mesmo só depois da morte”, fala.

Arminda Lopes conta que o primeiro trabalho que fez no Ateliê Livre teve como principal matéria-prima o véu do seu casamento. “Eu picotei tudo e quando estava na escada colocando os retalhos na peça, meu marido apareceu para me buscar. E, para minha surpresa, acabou convidando todo o grupo de colegas para jantar”, recorda. Nenhum dos dois imaginava que ali iniciava um processo de transformação da artista e da mulher Arminda Lopes.

Ramiro Furquim/Sul21

As primeiras peças da escultora eram puro perfeccionismo. “Eu estudava anatomia para retratar os corpos, principalmente a figura feminina que é a minha identidade e o que prefiro fazer. Minha preocupação era com a estética, o belo e a simetria perfeita”, explica.

Nesta linha, Arminda Lopes fez cerca de 1,5 mil peças e a comercialização era seu único retorno. Ela passou a ser referência e a receber trabalhos que ainda mantém como a confecção dos troféus do Festival Porto Alegre em Cena e do Prêmio Freio de Ouro da Expointer. “Ainda me prostituo, como chamo, fazendo trabalhos com material barato, como arame, para ganhar dinheiro. Porque com a arte tu não ganha dinheiro. Quando muito tu consegues emplacar uma boa venda com alguma peça. As casas contemporâneas não têm esculturas. Muitos não têm como adquirir uma obra de arte e outros preferem colocar um quadro na parede, que é muito mais fácil”, compara.

Em 2002, diante da perda da irmã caçula, vítima de um câncer, mesma doença que levou o pai e acamou a mãe, Arminda teve o seu ‘insight’ artístico. O ateliê na mansão da zona sul passou a ser o local de retratar em grandes dimensões e em metal, gesso ou argila, as vivências doloridas da sua e de outras vidas.

Perdas, a Estética da Dor

“Eu tinha acabado de perder minha irmã e estava visitando meu filho nos EUA e vi no aeroporto aquelas tropas americanas irem para o Afeganistão. Aquilo me revoltou muito. Ver pessoas como meus filhos indo para outro continente fazer guerra. Jovens que não tem absolutamente nada a ver com aqueles povos. Assim que cheguei ao ateliê, fiz a Madona das Mãos Vazias”, conta sobre a primeira escultura de contestação que produziu.

“A Madona das Mãos Vazias” – Série Perdas – A Estética da Dor. /Ramiro Furquim/Sul21

“Quando eu vi a ‘Madona das Mãos Vazias’ eu levei um choque. Eu disse que ela estava entrando numa linha de peças para museus, porque ninguém ia querer ter em casa, a não ser nós, as peças que ela estava fazendo. Mas, como arte, era algo que teria muito mais valor”, fala o marido.

A imagem da mãe que ao invés de segurar um filho, segura o nada foi a primeira de uma série de 12 peças em bronze com expressões de emoções universais, como a dor, o medo, a desolação, o pranto, a espera, a entrega, a súplica, a repulsa, o encontro e a pergunta.

“Eu pensei: ‘Isso ninguém irá comprar’. Mas minha preocupação foi fazer as expressões, passar aquela emoção. As mulheres estão vestidas como afegãs. Foi a partir destas obras, que foram parar no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS), que transformei minha relação com a arte. Eu não quis mais me preocupar em fazer peças que vendessem e embelezassem a casa das pessoas. Não podemos mentir quando nos entregamos de corpo e alma ao fazer um trabalho. É preciso despreocupar-se com a aceitação e o reconhecimento e fazer o que está sentindo. Foi uma catarse”, avalia a escultora.

Miseráveis, a Estética da Dor

Dois anos depois, Arminda Lopes encarou uma nova experiência de imersão no ateliê. Uma declarada inconformada com as desigualdades sociais, sempre foi ativista de projetos sociais e se utilizou da arte para contestar a realidade dos moradores de rua de Porto Alegre. “O artista também tem que fazer isso. Somos formadores de opinião, temos que gritar por meio do nosso trabalho. Já me perguntaram o que eu entendia de dor e perdas, se eu sempre fui privilegiada. Mas tudo que tenho conquistei trabalhando. Como qualquer outra pessoa tenho dor, depressão, angústias e inquietações. É sobre isso que me expresso”, comenta.

A série é composta de dez peças em bronze, em tamanho natural de pessoas marginalizadas que vivem pelas ruas. As roupas vestidas nas peças são de meninos e meninas das periferias gaúchas, visitadas pela artista durante o período de confecção das esculturas. “Eu queria a energia daquele lugar. Convivi com eles e retratei tudo que aquilo que está aos nossos olhos no cotidiano das grandes cidades e fingimos não ver ou ignoramos. A louca que anda na rua sem roupa, a parideira dando a luz no meio da rua, o menino que rouba comida para matar a fome e a pessoa que reflete sobre tudo isso fumando maconha”, descreve Arminda.

“Louca” – Série Miseráveis – A Estética da Dor da escultora gaúcha Arminda Lopes/ Ramiro Furquim/Sul21

O incômodo retrato da morte

Outra característica do contundente trabalho de Arminda Lopes é retratar algo que é tabu ou mesmo um desconforto para as pessoas. Na exposição “Ritos”, a escultora abordou a morte como o rito de passagem pelo qual, independente das crenças ou religiões, todos irão passar. “Foram obras impactantes. Corpos suspensos em cordas de açougue foram colocados dentro de uma sala que simulava uma capela. Eram como se fossem anjos. Os chamei de Passantes, Fiéis, Insanos. Todos somos passantes nesta vida. E tem momentos que só na insanidade que conseguimos alcançar nossa sanidade”, fala.

“Pranto”. Série Perdas – A Estética da Dor da escultora gaúcha Arminda Lopes./ Ramiro Furquim/Sul21
“Dor”. Série Perdas – A Estética da Dor da escultora gaúcha Arminda Lopes. Ramiro Furquim/Sul21

As dores da perda e a morte são encaradas com naturalidade pela artista. Além das perdas dos familiares próximos, ela já correu risco de vida quando descobriu um tumor no cérebro – ironicamente, no lado que comanda a criatividade. Atualmente descumpre ordens médicas e segue assumindo compromissos e fazendo esculturas. “Estou com os ligamentos do ombro rompidos. Porque é muito esforço físico e quando estou trabalhando não vejo a hora. Chego a ficar até 12 horas em cima de um trabalho e é tudo muito bruto. Trabalho de operário”, admite.

Neste momento a escultora trabalha na confecção de um monumento para um programa de doação de órgãos na cidade de Gramado. Recentemente confeccionou uma cruz de berços hospitalares para contestar o descaso dos governantes gaúchos com a saúde pública.

A escultora recebeu doação dos berços de um hospital e colocou uma roseira ao pé da cruz. A esperança é que a situação da saúde melhore até nascer as flores. Ramiro Furquim/Sul21
Arminda Lopes também revitalizou o parquinho da Praça ao fazer a instalação da “Cruz pela Saúde”. Ramiro Furquim/Sul21

“Eu trabalho várias obras ao mesmo tempo. Eu estou fazendo uma coisa, daqui a pouco me vem uma inspiração de outra eu paro e faço a outra, assim eu vou fazendo várias ao mesmo tempo. Para entregar uma exposição pronta leva um ano, contando com a fundição”, diz.

A mão-de-obra da fundição é a única parte do processo de produção das esculturas que Arminda terceiriza. Hoje em dia, porém, ela conta com uma equipe de apoio para auxiliar no transporte das peças, que ela faz questão de fazer em tamanho natural.

Sem retorno financeiro sobre as peças de arte de contestação, ela depende de patrocínios e incentivos culturais. A série Miseráveis, por exemplo, fez com recursos da Lei Rouanet. “Agora tenho a contrapartida de levar o trabalho para expor em cinco estados, mas, para transportar e fazer a instalação também tem custo. O problema é questionar. Ninguém quer pensar e onde tem contestação, temos mais dificuldade”, explica.

Escultora gaúcha Arminda Lopes/ Ramiro Furquim/Sul21

As palavras do marido de Arminda Lopes se confirmaram. Levou 30 anos para que ela pudesse saborear do reconhecimento que todo artista espera diante da dedicação de expressar a alma em obras. Arminda foi a primeira e única escultora gaúcha a expor no Salão do Louvre, em Paris, 2007, com a série Miseráveis. Neste mesmo ano foi condecorada com a Medalha Vermeill – conferida pela Sociedade Acadêmica de Artes, Ciências e Letras de Paris, na França. Já realizou inúmeras exposições individuais nos mais importantes espaços culturais do Brasil. Tem obras no acervo do MARGS (Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli), em Porto Alegre; no MUBE (Museu Brasileiro da Escultura), em São Paulo;  no Museu Escultórico – Jardim das Esculturas na Coréia do Sul, em Seul;  no Museu Pedro Álvares Cabral – Santarém, em Portugal, entre outros.

“Eu só posso fazer o que eu sei fazer, não o que os outros querem. O meu trabalho é este. Todos que estão aqui não sabem quem irá ficar como artista. O tempo que irá dizer. E nesta vida, é impossível passar sem ver. Impossível fingir ignorar ou ficar de boca e coração calados. Preciso despertar corações que optaram pela cegueira”, afirma.

Esboço da peça “Súplica” da Série Perdas – A Estética da Dor de Arminda Lopes./ Ramiro Furquim/Sul21
“O que importa é o resultado das emoções, a concretização visível dos sentimentos”, diz Armindo Trevisan sobre Arminda Lopes. Ramiro Furquim/Sul21

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